Reconheço muito em mim partes do meu avô Boizan, Benedicto Boizan. Mas hoje quero falar sobre meu avô Benecase, Paschoal Benecase. Em parte me tornei um pouco de meus avôs.
Álbum de Figurinhas da Cidade de Curitiba
Estes dias passei por uma banquinha de revistas. Muitas das banquinhas não são mais somente de revistas e jornais, muitas delas acabaram se tornando de bebidas e salgados também. Olhei um cartaz que estava colado do lado de fora da banquinha. Era sobre um álbum de figurinhas, mas não da Copa do Mundo, era o álbum de figurinhas da cidade de Curitiba. Achei tudo aquilo interessante e fui me informar. O dono da banquinha me disse que havia há um bom tempo o álbum. Eu não tinha conhecimento do mesmo e logo me tomou a vontade de adquiri-lo.
Ano de Copa do Mundo
Em 2002, ano especial para nosso país, me lembro de meu avô Benecase estar em casa aqui em Curitiba. Era ano de Copa do Mundo, foi para mim o último ano dourado de nossa seleção, ou talvez, para mim, o único ano.
Meu avô há algum tempo já vinha criticando a seleção. A seleção já havia se tornado time de milionários. No Brasil e em boa parte do mundo, vemos torcidas com uma paixão imensa pelo futebol, sendo uma parcela enorme destas torcidas formada por uma camada mais simples e empobrecida da população. Hoje para se ir num jogo da seleção é necessário um certo poder aquisitivo, fora da realidade da maioria da população. Eu tive a oportunidade de assistir um jogo da seleção em 2003, Brasil X Uruguai, aqui no já abandonado Pinheirão, em Curitiba.
Meu Avô e Aquela Ideia
Aquela ideia do meu avô, que a seleção já não representava o país, uma seleção preocupada em muito com o dinheiro, com festas, com status. Ele me dizia que lá pelas décadas 50, 60, 70 e 80 as coisas eram diferentes. O amor pela camisa, pelos brasileiros, pelo país era algo muito mais relevante do que os jogadores buscavam naquele ano de 2002. Eu não gostava e não o compreendia muito na época o porquê de ele dizer estas coisas. Eu era apaixonado por futebol, eu me inspirava fortemente em alguns jogadores. O Ronaldinho Gaúcho era o ídolo total, não só da seleção, mas do mundo.
E, lá em 2002, os jogos passavam pela parte da manhã no Brasil, antes de ir às aulas dava tempo de assistir aos jogos. Estavam-nos nós, eu, meu pai e meu avô assistindo ao jogo de Brasil e Inglaterra. E meu avô mais uma vez demonstrando sua aversão à seleção, não porque não amava seu país, pelo contrário, achava que o país não estava sendo muito bem representado. Meu avô amava futebol, e até o fim foi um pontepretano roxo, infelizmente ele não chegou a ver a Ponte Preta campeã. Recentemente a Ponte foi campeã da série C e carrega orgulhosamente o lugar de ser uma das maiores torcidas do interior do país e juntamente com o Guarani representam o maior clássico do interior.
Aquela Falta
Então houve uma falta, aquela falta que todos nós não cansamos de assisti-la e nos perguntar, foi um gol por querer ou sem querer? Eu, na minha opinião, sempre acreditei que foi e sempre será por querer. Foi do mago, foi do gênio da bola, foi do maior jogador de jogadas plásticas de todos os tempos. Foi de Ronaldinho Gaúcho. A falta, como todos nós sabemos, foi muito longe do gol e obviamente que daquele local só poderia ser realizado um cruzamento. Todos pensamos isto. O goleiro, obviamente, pensou o mesmo. Mas o gênio não pensa igual, o gênio trilha outros caminhos, o gênio está sempre à frente.
E o gol de placa foi realizado. Eu, um adolescente de 14 anos, berrava demais, era muita emoção. E meu avô ria muito, dava muita risada, muito feliz também. E eu falava para ele: vejo só, esta é nossa seleção, isso é futebol. Meu avô, meu pai e eu, cada um de uma geração estávamos eufóricos, cada um ao seu modo. A seleção representava mais uma vez. A seleção estava escrevendo mais um capítulo da nossa amarelinha.
Compreendendo Melhor Meus Avôs
Hoje compreendo melhor meus avôs, me identifico com eles em algumas características. Hoje, já não tenho tanta paixão pelo futebol. Já não sou um fanático, apesar de ainda torcedor. E cada ano toma conta de mim a sensação que as seleções passadas foram melhores e até mais românticas.
Este ano não comprarei o álbum da Copa do Mundo, na verdade há décadas não o compro. Tenho uma certa nostalgia acompanhando meu sobrinho com seus álbuns de futebol. Este ano comprei o álbum da cidade de Curitiba, da cidade que aprendi a amar e respeitar, da cidade que nos dá orgulho. Quero sim que o Brasil vença a Copa neste 2026, mas sinceramente não sei se temos chance, na verdade estou até meio por fora.
O meu avô Boizan nos passou a paixão pelo SPFC, nos passou um olhar mais humano pela sociedade. Já meu avô Benecase foi mais presente, era o avô brincalhão, o avô que nos passou uma personalidade forte, assim como era também do meu avô Boizan.
Este ano vou torcer mais uma vez pela Seleção, com a maturidade que o tempo traz, com a necessidade de enxergar as possibilidades reais e mesmo assim acreditar. Mas acima de tudo me lembrei de meu avô Benecase, do seu jeito, do seu carinho. Me lembrei porque talvez hoje sou um pouco ele também, um pouco ele e um pouco meu avô Boizan.

Deixe um comentário